crônicas

Infeliz a minha maneira

03:30

Já faz um tempo que sei que preciso escrever sobre isso. Acredito que todas as histórias precisam ser contadas, inclusive as tristes. Mas, nunca contei isso a ninguém. Não é um segredo, só não é um assuntou muito amistoso. E sendo sincera, eu sempre quis proteger a imagem que as pessoas possuem daqueles que eu amo. Mas, eu preciso falar sobre isso. Preciso escrever. 

Aprendi que o amor é algo completamente altruísta. Creio que as pessoas comuns não entendem a extensão dessa sentença. Amar é não desistir. E não existe razão dentro disso. Amar é abrir mão de si mesmo e aceitar as mazelas do próximo. 

Amar é perdoar seu pai alcoólatra, porque ninguém escolhe ficar doente. Porque um comportamento, aprendido e ensinado como um alívio para uma ferida mais profunda, não pode ser severamente condenado. Amar é saber que se ele tivesse forças mudaria o passado. Amar é saber que mesmo se ele ainda perdesse os sentidos em bares deploráveis, ele ainda te amaria. Ele ainda seria seu pai que te ensinou a desenhar e que sempre, sempre te ouviu como se tudo que você falasse fosse de uma sabedoria ímpar. 

Amar é perdoar sua irmã que se apaixonou por um traficante aos dezesseis. É amar a menina que ela teve naquele mesmo ano, e que hoje é uma fonte inesgotável de alegria. Amar é perdoar todas as vezes que ela fez sua mãe chorar. É deixar de lado todas as lembranças dos ossos proeminentes e das fugas inesperadas. Amar é proteger as outras três crianças que vieram depois. Amar é não aprovar o comportamento destrutivo que parece não ter fim. Amar é se afastar, mas deixar que ela saiba que você vai estar sempre lá para perdoar de novo, de novo e mais uma vez.

Amar é entender todas as horas que sua mãe trabalha além da própria força. Amar é ser grata e saber que, sem ela, talvez a morte, a depressão, o desespero, já teriam te alcançado. Amar é não se ressentir por ela ter criado tantas crianças de pais ricos e não ter tido condições de te ajudar na lição de casa. Amar é saber que ela fez tudo por todos. Amar é saber que sem ela a família não existiria.

Amar é não condenar o próximo pela ignorância. É agradecer pelo bolsa família que já te ajudou no passado e defender a transformação social hoje. Amar é encontrar os filhos de ricos criados por mães empregadas e ter paciência para explicar como o mundo realmente é. 

Ele é faminto amigo. Ele é doente. Ele é assustador. As dores que você sente de barriga cheia são piores nas casas afastadas que estão no escuro. Amar é ter esperança de que a pobreza vai deixar de ser invisível. Amar é sempre, sempre lembrar do lugar de onde partiu. Amar é lutar para que as coisas mudem. Para pais, mães, irmãs e crianças que ainda não sabem de nada do mundo, mas que conhecem demais sobre a dor. 

Eu tenho um final feliz para contar. Se você me conhece já sabe disso. Mas, eu imploro: veja! Enxergue as pessoas invisíveis. Faça o bem em nome de Deus, Maomé ou do Lula. Qualquer um, eu não me importo. Eu só preciso que você faça alguma coisa em relação aos nossos tormentos. Ninguém liga, mas eu preciso que você seja diferente. Eu preciso do fundo do meu coração que o álcool, as drogas e o trabalho excessivo pare de matar os pequeninos desta nação.

Por favor! Faça por mim, por você e pela sua família. Porque eu sei que existe uma chance gigantesca da sua história ser parecida com a minha. 

crônicas

Carta aberta

22:26

Por que você parte meu coração? Você não vê que isso está nos matando? Você não enxerga que esses anos parecem um tormento interminável? Sempre acredito que dessa vez vai. Dessa vez vai ser diferente. Mas, não. Você sempre me decepciona. 

E o pior de tudo é que eu não sei o que sentir. Te amo pelo laço que nos une. Te odeio pelas feridas que você aflige as pessoas mais preciosas deste mundo. Eu sei que sua vida foi penosa, mas a essa altura você já teve muitas, muitas chances de transformar toda a maldade, a miséria, a desesperança em algo bom. 

E se eu consigo levantar todos os dias e caminhar, por que você não consegue? Você acha que sua vida foi difícil, mas foi você quem escolheu o seu caminho. O que eu escolhi? Eu escolhi acordar na madrugada e saber que você não estava lá? Eu escolhi ouvir vozes exaltadas, sendo esquecida em bancos de escola e em quartos escuros? Eu escolhi te ver definhar, depois enxergar a carne voltado, como se estivesse saudável outra vez, só para depois ver os ossos proeminentes novamente? Eu escolhi amar as pessoas que você colocou no meu caminho apenas para ver você as deixando para trás, como se fossem mais um dos seus pertences que foram perdidos tantos anos antes?

O que eu faço com você? Eu te rejeito? Como posso? Como posso deixar de te amar se você é parte de mim? Mas, você não parece me amar. Eu te olho e penso que você não ama ninguém. Nem a si mesma. Por quê? Você tem tanto potencial. Poderia ser qualquer coisa. Mas sempre escolhe colocar a culpa no passado pelos seus erros constantes. Você já notou isso? Já notou que sempre faz as mesmas coisas. Você está dentro de um ciclo de destruição, mas porque nos arrasta junto?

Estou tão cansada que já quis te esquecer. Tão cansada de ser espectadora do seu espetáculo de morte que já quis te riscar das minhas preces. Eu só queria que você pensasse um pouquinho. Eu tive família? Eu me lembro claramente de todos os anos sendo deixada de lado por estranhos. Eu deixei de amar alguém por isso? A negligência, o alcoolismo, a necessidade de sustento que impedia o cuidado diário. E tudo isso com o agravante de não saber se você tinha um teto. E depois suas crianças. Eu tenho pavor do que pode acontecer a elas tento tão menos do que eu tive. De todas as pessoas você devia saber como é. De todas as pessoas você devia ser a primeira a lutar pelo seu sangue.

Eu estou cansada. Já não acredito que você possa mudar. Eu te amo, mas não te suporto mais. Eu não tenho forças para suportar. E você nem liga. Acho que nunca ligou. 

crônicas

Levanta-te e anda

21:22

Já escrevi tanta coisa, mas tudo parece tão irrelevante, trivial. Não sei se as pessoas percebem o quanto nossa rotina é superficial e vazia. Nós somos pessoas egoístas de corações impuros que finge se importar. Fingimos ao nos comovermos com tragédias à milhas de distância. Mas, quem se importa com a tragédia ao lado? Qual foi mesmo a última vez que perguntei ao meu vizinho se ele precisava de algo? Acho que nunca. 

Mas existe dentro de mim esse querer. Um chamado maior do que a minha maldade que me enche de esperança. Uma voz maior que meu coração imperfeito que me motiva a tentar. Eu tento me importar. Por isso sigo as regras, me esforço para deixar meu temperamento controlado. Mas, minha vida passa como se eu estivesse sonolenta, tentando acertar os passos, mas sendo impedida pelo peso nos olhos. 

É necessária muita coragem para acordar. Porque eu preciso te contar algo: o mundo é mau. Estou chorando muito por saber disso. Meu coração dói profundamente. Nós vivemos em um lugar onde uma mãe abandona seus filhos como se eles fossem coisas. Você já se aproximou de uma cachorrinha depois de ela ter dado a luz? Ela defende seus filhotes, então como pode uma mãe, de uma raça supostamente superior, abandonar seu próprio sangue? Abandonar sua herança?

Existem muitas crianças vivendo sem amor. Incontáveis pequeninos que nunca terão uma chance. Meninos e meninas que não são vistos, que estão aí, do seu lado e permanecem invisíveis. 

Eu quero ser a pessoa que vê. Eu quero fazer algo. Talvez isso comece com minhas lágrimas, minhas preces, mas quero ir além disso. Quero ser mãe, tia e irmã para quem nunca teve uma família. Isso não porque eu sou uma boa pessoas, mas porque eu preciso ser. Porque as crianças esquecidas precisam de alguém que seja. 

Tudo começa com acreditar. E eu acredito que os órfãs desse mundo que mendigam de fome podem ter um futuro diferente. Eu acredito que casos perdidos não existem. Eu tenho fé de que se nos levantarmos, se abrirmos nossos olhos, se tivermos coragem para enxergar a podridão do mundo, nós podemos fazer algo para que ele não gere tanta morte, mas passe a exalar vida. Eu acredito.

crônicas

Amanhã eu volto

19:05

Já faz um tempo que as coisas permanecem sem mudanças significativas. Sinto saudades do passado, mas é enlouquecedor não dar um passo para frente no presente. É difícil viver assim. Não entendo as pessoas que se acomodam. 

Eu não devia fazer isso. Proclamar continuamente que estou de partida. Mas, sei que não posso viver a mesma vida por um prazo prolongado. Sei que nasci para transformações constantes. É só a maneira como as coisas são para mim. Não há nada de errado, apenas essa vontade de ver um cenário diferente. 

Mas a vida possuí amarras poderosas. É preciso saber para onde se está indo antes de partir. Mas, eu não sei. Só sinto que em breve descobrirei. Ao menos espero que sim. E se eu partir de fato, não sinta minha falta. É bom guardar memórias com um toque de saudade, mas não faz sentindo lamentar por alguém que precisa estar em movimento para ser feliz. Eu estou sempre dizendo adeus, então não fique me respondendo com olás.

Apenas, fique feliz por mim. Eu sempre estou por você. Às vezes, ver a sua alegria é o único motivo para os meus sorrisos.

Fungos na pia

22:15

Ainda não aceitei o fato de que sou adulta. Pago as contas, trabalho de oito às cinco, mas é muito estranho. Simplesmente não vi quando isso aconteceu. Talvez tenha sido quando me mudei da casa de meus pais, um ano atrás. Foi tudo tão repentino. Consegui um estágio e logo estava em uma república.

Era horrível. Garotas estranhas que enchiam o apartamento de desconhecidos. Foram meses apenas existindo, evitando criar raízes em um lugar tão desagradável. Mas, as coisas melhoraram. Consegui um segundo estágio. Caminhava quarenta minutos e corria para não me atrasar. Trabalhei como se soubesse mesmo o que eu estava fazendo. Era muito bom. Eu gosto de manter a mente ocupada.

Agora tenho um emprego de verdade. Terminei a faculdade. Moro com meu melhor amigo. Mas, essa não parece ser razão para que eu tenha conquistado meu crachá de mulher crescida.

Foi quando instalei meu próprio chuveiro? Foi quando comprei a minha primeira cama sozinha? Talvez tenha sido quando descobri os fungos na pia. Tão nojento! Os dedos dos meus pés se encolhem só por imaginar. De um laranja doentio, causados pelo excesso de umidade vinda do vazamento. Não tive outra opção além de limpar. Usei minha voz de negociante para encontrar alguém que entendesse de canos para concertar.

São coisas tão pequenas que me desafiam agora. Acertar o tempero para que o arroz ao menos pareça comestível. Entender que o banheiro precisa ser lavado e que as roupas não podem ficar jogadas em qualquer canto. Lavar a louça não é um problema, o difícil mesmo foi ficar seis meses sem geladeira, agora sei o valor de um bom copo de água gelada.

Talvez esses incômodos me tornem mais forte. Já descobri que aguento mais do que imaginava doze meses atrás. A vida não é perfeita, mas vencendo cada pequena batalha do dia a dia me descubro uma mulher mais capaz.

A solidão não me quebrou. Os constrangimentos não me pararam.

E tudo isso é tão banal, tão coisas pelas quais todo mundo passa, que nem parece algo grande.

Mas é. Crescer é a coisa mais grande que acontece com a gente. É a coisa mais inconveniente e animadora que existe.

Inevitável e revelador.

É descobrir quem a gente realmente é. E eu gosto de quem sou.


Gosto de ser a mulher que me tornei.

crônicas

Amar é viver

22:14

O mais importante do que tê-lo ao meu lado é saber que ele está bem. Escovando os dentes, tomando vacinas, lavando os sapatos, indo sempre a mercearia. Mais importante do que tê-lo é saber que ele está vivendo. Ele me enche de orgulho por não desistir da vida.

Como sempre, estou confusa, mas saber que ele está bem me proporciona paz. É estranho porque isso não muda com o passar do tempo, com a distância. Só é algo que sempre foi, que sempre vai ser. Ele sempre vai ter certa influencia sobre meu humor.

E não acho que seja fraqueza admitir isso. Não acho que é uma vulnerabilidade. Se importar com os outros é o que nos torna capazes de redenção. E amar é se importar. Amar é ter coragem de dizer: "quando você está bem eu fico de bom humor".

É claro que não é tão simples. Na vida, nada é simples. As coisas são complicadas e confusas mesmo. Naquele nível de não ter ideia do que vem adiante.

Mas, a gente até que pode se dar ao luxo de ter algumas certezas. Sobre quem a gente é, e sobre a possibilidade de se tornar uma nova pessoa, se necessário. Quando se conhece seu próprio coração, simplesmente se sabe dessas verdades duradouras.

Por isso eu sei. Sei que amá-lo nunca vai ser fácil, mas vai ser sempre minha escolha. Por isso que continuo escovando os dentes, lavando os sapatos, indo a mercearia, (precisando resolver logo aquele problema com as vacinas), porque estar viva é importante.

Porque querer viver bem é parte crucial do amor pelo outro e por si mesmo. Porque manter o coração batendo é essencial. Porque lutar diariamente para ser melhor é indispensável. Ser um coração nobre é parte do pacote. Afinal, de que adiantaria doar um coração que não estivesse em condições de amar?

Eu acho que posso fazer isso. Acho que sou forte o bastante para acreditar. Sou forte o bastante a ponto de confiar que o amor, mesmo que todos digam o contrário, é um sonho digno de buscar.

Eu só queria dizer... que me faz bem saber que ele está lendo bons livros.

crônicas

Sono, universo e tudo mais

23:59

Estou com sono e cansada, mas isso não é novidade. Sinto que toda a minha energia é sugada sem que eu perceba. E sim, estou fazendo algo com a minha vida. Só não noto o propósito central de tudo isso.

É de se esperar que, nesse ponto, esse tipo de pergunta existencial não estivesse mais em minha mente. Mas, acredito que nossa alma possuí um clamor, uma necessidade permanente de se encontrar, de entender porque em um universo tão grande, com tanto potencial da vida, logo esse planetinha azul, quase na curva de saturno, foi vingar. Por isso a fé é a resposta, porque a única regra é acreditar.

E eu acredito. Acredito tanto que não posso ter uma vidinha como alguém que passa por aqui entorpecido, continuando o ciclo. Infância, sexo, morte. Tudo parece girar em torno disso. O que você viveu na infância vai estar sempre contigo. E na vida adulta tudo parece conspirar para a reprodução da espécie, é o típico comportamento que se manifesta toda vez que alguém me pergunta se estou sozinha.

E a morte, ela é a chegada final. O descanso das angustias que sussurram perguntas retóricas constantemente. Eu não tenho medo de morrer ou de ser esquecida. Sinto uma grande indiferença no momento com relação ao fim.

E porque deveríamos temer isso? É a parte mais fácil. Começar é tão árduo. Em alguns dias sair da cama parece com um dos doze trabalhos de Hércules. Depois continuar sem desistir é como estar naquele estado de quase afogamento, tentando ficar a tona, lidando com a força destrutiva das ondas do dia a dia.

Quando tudo acaba, resta a saudade que é uma coisa tão simples. Você sorri, lembra dos bons momentos, mente para si mesmo de forma que tudo pareça ter sido perfeito no passado. E talvez isso te dê forças, mas não é a forma certa de continuar.

A forma certa, a forma corajosa de não desistir, é dar aquele salto de fé. Aquele famoso se atirar do precipício, onde as leis da física são invertidas. A morte interna fica no topo, e a vida, o novo começo está no fundo.

Por isso ninguém pode te conter. Ninguém pode segurar sua mão e te convencer a ficar na beira, a espera de que o futuro te alcance enquanto aguarda de forma passiva. É necessário saltar e acreditar que essa aposta é a que vai funcionar. Dessa vez vai. Nesse ano vai.

E se não for, é só deixar a saudade guardada. É só caminhar mais uma vez para outro ato corajoso de fé. Fé em si mesmo, fé na humanidade.

Fé de que aquele dia vai ser diferente. Fé de que levantar da cama vai ser a melhor decisão do século. Fé de que escolher viver plenamente esse momentinho vai fazer toda a diferença nesse universo que conspira para que a gente, quase no quintal de Marte, consiga fazer o melhor. Conspira para que a gente seja melhor.