textos

Aquele perfume passou por aqui

17:01

Cheiros são engraçados. Um ambiente antes barulhento se torna silencioso, mas o  cheiro permanece, como um lembrete constante dos momentos que só eu me lembro que aconteceram naquele lugar. 

Cheiros são leais. Aquele livro que li na adolescência ainda faz o meu nariz se enrugar. Ainda faz eu me sentir aquela garota de quinze anos sozinha, que tinha nas palavras a única companhia. 

Cheiros são estranhos. Eu visto a roupa da mamãe e me sinto em casa, mesmo sabendo que muitos quilômetros nos distanciam.

Cheiros são intimidadores. A sala cheia de senhoras que julgam minha aparência faz os meus pulmões se apertarem. Elas passam a sensação de limpeza rígida.

Cheiros são engraçados. Eles chegam a mim como uma lembrança distante e vívida. É difícil ignorá-los. Às vezes eu os busco para não deixar que as coisas morram. Às vezes as coisas morrem e eles permanecem. 

Cheiros são memórias em formas físicas tentando nos arrastar de volta para o passado.

crônicas

Sem silêncios

22:41

Amigo, a depressão vai acabar matando toda a nossa geração? Já ouvi por aí que é o mal do século. Depois de ver tanta gente indo embora de repente (mas sem ser de repente) entendo a extensão desta afirmação. 

É difícil, eu sei. Como a gente consegue tratar isso? Como que se salva alguém que está à deriva, sem acreditar que possa existir um novo porto seguro? A gente ama? Diz que vai ficar tudo bem?

Às vezes não fica tudo bem. E às vezes é difícil amar alguém que já não sente mais nada. Não sabemos realmente lidar com esse tipo de doença, de dor. 

Eu não sei o quanto devo revelar sobre o meu próprio coração. Já senti ele pesado demais, liguei para uma linha de apoio. Tinham cem pessoas na espera. Eu pensei que uma daqueles outras almas perdidas devia estar sofrendo mais do que eu, então abri mão do meu lugar na fila. Estava difícil, mas não era impossível para mim. E talvez estivesse insuportável para aqueles outros cem. 

Mas, pense bem, é a minoria que chega a pedir ajuda. Não é uma questão de coragem. Acho que está mais relacionado com nosso histórico, nossa personalidade. Existem pessoas que se desesperam gritando por ajuda. Outras sentem o terror em profundo silêncio.

A gente não pode aceitar o silêncio. Por isso eu escrevo, porque não consigo falar. Tirar de dentro os pensamentos ruins faz toda diferença na minha rotina. Eu nunca pensei na última consequência, na decisão sem volta, mas eu entendo quem chega a isso. Empatia talvez seja a palavra que a gente mais precisa.

Amigo, não tenha medo. É uma doença, mas não contagiosa. Você pode se aproximar. Você pode perguntar o que está realmente acontecendo. Você pode ouvir. Entenda o que essa alma precisa: consolo, compreensão, paciência, atenção, ajuda profissional. Note os detalhes e não minimize algo que pode levar alguém que você ama para longe, sem voltas. 

crônicas

Querido presidente

11:53

Não me importo com o tamanho do seu salário. Não ligo se você se chama João, Maria ou Carlos. O que realmente importa é você fazer a sua parte. Veja bem, eu faço a minha. Tomo cuidado com o que digo ou faço. Atravesso na faixa de pedestres (quando disponível), não jogo lixo no chão, promovo grupos de caronas para diminuir o impacto que minhas viagens constantes provocam na bendita camada de ozônio. Trabalho quarenta horas semanais para ganhar um salário que já saí do caixa eletrônico com destino: aluguel, condomínio, internet, impostos. Eu sou uma boa pessoa.

Mas, o senhor não me ajuda! Eu não peço muito, só quero que você me represente. Eu quero que você pare de se comportar como alguém que não enxerga as necessidades de quem te dá o poder. E entenda: a corrupção pode ter te levado longe, mas ela também te custa muito caro. Seja inteligente, use seu potencial de (segundo o padrão corrente, com a única exceção) homem branco privilegiado, enxergue que uma hora o mundo dá uma volta que te leva pro buraco.

A justiça divina é nossa única esperança. Brasileiro acredita e sempre alcança e, vale-me Deus! Um dia eu vejo essa elite insensível pagando o que me deve, desde que renderam minha bisa índia dizendo o que fazer ou quem ser. Roubaram terra, roubaram o conceito de SER HUMANO, deturbaram a cultura e as crenças. Colocaram meu sangue em uma posição de inferioridade. Pai mulato, pedreiro, trabalhador que nem cinto de segurança tem quando vai construir os prédios para os brancos. Mãe branca, loira, criada por si mesma, com o jeitinho brasileiro sobrevivia mesmo quando não tinha comida, empregada doméstica, mas com duas filhas com nível superior. Amém!

A fome não está longe. Ela não me pegou por uma geração, mas caro líder desta nação, ela ainda está nas casas vizinhas. Ainda vejo, pelo meu bairro, crianças se tornarem mães. Ainda vejo amigos morrendo por causa de coincidências: de estar no lugar errado, de viver no lugar errado, de ser do bairro com casas financiadas pelo governo.

E que governo! Eu lembro de falarem para minha mãe que iam colocar a gente na rua. Mas, como isso pode ser certo? Como pode fazer sentido? A gente nunca precisou de esmola, mas presidente, a gente precisava de uma chance, uma oportunidade, um teto qualquer enquanto a vida ainda era difícil demais, trabalhosa demais.

Você já teve dois empregos, cada um pagando meio salário mínimo? Você já precisou acordar de madrugada para pegar o transporte? Já teve que deixar suas crianças na creche para ir "panhar café"? Suas mãos são calejadas, sua pele queimada, seus ombros doem sempre (parecendo que vão doer para sempre)? Senhor presidente, o Brasil é lindo, com um povo que nunca desiste, mas faça a sua parte. A gente não quer esmola, a gente quer justiça. A gente precisa ser ouvido. A gente quer trabalhar (porque amamos e não sabemos viver de outra forma) horas dignas. A gente quer um tempinho para almoçar, nada exagerado, só o essencial para recuperar a forças e continuar "pegando no pesado". A gente quer chegar no fim da vida e ter casa, filhos com uma vida melhor do que a nossa, com a possibilidade de finalmente descansar e cuidar da saúde. Talvez você não saiba, mas o nosso luxo é olhar para o futuro e acreditar que vai ser melhor. Logo ali, daqui dez anos, a vida vai ser melhor. Mas, você precisa fazer sua parte. Porque o que o jornal está falando desde que surgiu a TV é que ninguém se importa. Mas, você deveria se importar.

Apenas, faça o seu trabalho.
Nós estamos fazendo o nosso, sem parar, sem descansar. 

crônicas

Hoje é um

17:00

De um a dez, qual é seu nível de satisfação hoje? Alguém me perguntou mais cedo. Eu respondi que o dia estava parecendo um seis. Ouvindo Loser e trincando os dentes, é difícil olhar ao redor com objetividade.

Eu já quis desaparecer. Já senti desespero em meio a multidão, como se o mar de desconhecidos pudesse me engolir. As minhas palavras geralmente são sobre solidão e morte. Sempre que sinto que alguém pode ultrapassar essa barreira de apatia e medo, me afasto. Como se eu gostasse da escuridão. Como se eu estivesse correndo para uma colisão por querer.

Eu não quero. Pelo menos quero não querer. Faz sentido? Eu não sei.

Acho que é comum pensar que o mundo seria melhor sem a nossa interferência. Não é como se esse não fosse um pensamento comum na adolescência. Mas, eu já passei essa fase. Eu já estou vivendo a tão prometida vida madura. Mas não vejo as cores. Não consigo perceber a luz entrando pela janela ao crepúsculo. Não consigo sentir o cheiro de verão com as chuvas no fim da tarde. Eu envelheci, mas meu corpo ainda parece ser feito de vidro. Meus olhos atravessam as coisas como se elas não existissem. Como se eu não existisse.

E eu existo? Ou ainda, eu estou viva? Porque eu sei que isso é real. Minha percepção ainda está ativa. Consigo sentir a mesa que apóia meus braços. Sinto o chão por baixo dos meus pés. Mas, isso é prova suficiente? Eu ter consciência da minha existência é o bastante para que minha condição seja de ser "respirante".

Daqui para frente, quem sabe, dentro de cinquenta ou sessenta anos, o plano é continuar a rotina. Mas, e quando o tempo se esgotar? O que poderá ser uma prova de que já estive aqui? Este texto? Não. Essas são só umas poucas palavras que serão perdidas no mar de informações inconstantes.

Mas, e daí?! Sempre estamos falando sobre o fim do mundo. Nos jornais, nas redes, nas rodinhas durante os intervalos do dia. "O fim está próximo." E talvez esteja mesmo. Terrorismo, descaso, violência, aquecimento global. Talvez o mundo acabe antes do meu prazo de validade. E no fim quem no universo se lembraria do William, da Clarice ou da Ana?

A resposta é ninguém. Ninguém se importa. Ninguém se lembrará. Ninguém sobreviverá.

crônicas

Realmente culpo o universo pela solidão?

23:24

Existe momento certo para escrever? Inspiração parece uma coisa tão mistica. Arte é mais do que isso. Criar é precisar tirar de dentro algo com o qual não conseguimos lidar sozinhos. Eu não sei lidar com tantas coisas. Sou cheia de assuntos inacabados.

Sempre fui uma pessoa meio solitária. Interação humana é desafiante. E sempre fiquei bem com isso. Aprendi muito cedo a lidar com meus problemas por mim mesma. Ninguém vem me salvar, então eu sempre salvei a mim mesma, lutando ou fugindo, eu sobrevivi. 

Mas, a que custo? Eu tenho uma vida muito boa. Privilegiada, nova classe média. Família legal, amigos gente fina, emprego estável, projetos em andamento. Mas, eu ainda vou para um apartamento vazio no fim do dia. Eu ainda tenho uma porção de primeiras experiências sem previsão de serem experimentadas. 

Às vezes, eu tenho medo de não estar vivendo de fato. Distraio-me sempre com tanta facilidade que não consigo determinar a diferença entre o ontem e o hoje. Fico com a cabeça tão longe que não consigo sentir saudade, ou melancolia. Eu só sinto indiferença em relação as coisas que nunca tive. E essa apatia me impede de desejar e buscar essas vontades esquecidas. 

Eu não sei se ainda sou a pessoa de alguns meses atrás. Ter uma afeição romântica parece tão sem significado agora. Eu provavelmente nunca vou estar ao lado daquele alguém especial outra vez. Pensar isso não me chateia, não me enche de raiva, não me faz querer procurar outro alguém. Pensar isso é como pensar no almoço de domingo, que provavelmente vou perder por dormir demais. 

Faz parte. Acredito realmente que algumas pessoas nascem para morrer sozinhas. Você provavelmente não é um desses casos, mas acho que sou. E tudo bem. Todo mundo nasce com um caminho para traçar. Eu já tenho demais, alguma coisa precisava faltar para haver justiça cósmica, certo?! 


crônicas

Não deixe de se alimentar

12:10

Estou com fome. Sendo sincera, vivo uma relação de amor e ódio com minha alimentação. Não estou doente, só não tenho vontade de comer (na maior parte do tempo). Então é estranho perceber a necessidade física de energia. Talvez eu esteja tão desanimada porque ando tendo refeições dignas apenas nos fins de semana.

Às vezes, tenho medo de ser como Theodore ou como a Hannah. Nossas semelhanças me assustam. E minhas mãos sempre frias me assustam. Mas, não o bastante. Nunca é o bastante.

Até que ponto é possível distinguir entre o estar bem e o caminho sem volta? Existe caminho sem volta? Eu não sei nenhuma das respostas.

Eu tento manter as mentiras longe das minhas palavras, mas é tão complicado dizer apenas a verdade. Ninguém quer realmente saber, porque ninguém quer se responsabilizar. Todos estão muito ocupados. Esse tipo de incômodo deve ser tratado em silêncio para que a não haja pertubações na rotina. E se me perguntarem o que realmente está acontecendo, um sorriso é uma boa resposta como qualquer outra. 

A fome já passou. Talvez mais tarde eu faça pipoca.