crônicas

Realmente culpo o universo pela solidão?

23:24

Existe momento certo para escrever? Inspiração parece uma coisa tão mistica. Arte é mais do que isso. Criar é precisar tirar de dentro algo com o qual não conseguimos lidar sozinhos. Eu não sei lidar com tantas coisas. Sou cheia de assuntos inacabados.

Sempre fui uma pessoa meio solitária. Interação humana é desafiante. E sempre fiquei bem com isso. Aprendi muito cedo a lidar com meus problemas por mim mesma. Ninguém vem me salvar, então eu sempre salvei a mim mesma, lutando ou fugindo, eu sobrevivi. 

Mas, a que custo? Eu tenho uma vida muito boa. Privilegiada, nova classe média. Família legal, amigos gente fina, emprego estável, projetos em andamento. Mas, eu ainda vou para um apartamento vazio no fim do dia. Eu ainda tenho uma porção de primeiras experiências sem previsão de serem experimentadas. 

Às vezes, eu tenho medo de não estar vivendo de fato. Distraio-me sempre com tanta facilidade que não consigo determinar a diferença entre o ontem e o hoje. Fico com a cabeça tão longe que não consigo sentir saudade, ou melancolia. Eu só sinto indiferença em relação as coisas que nunca tive. E essa apatia me impede de desejar e buscar essas vontades esquecidas. 

Eu não sei se ainda sou a pessoa de alguns meses atrás. Ter uma afeição romântica parece tão sem significado agora. Eu provavelmente nunca vou estar ao lado daquele alguém especial outra vez. Pensar isso não me chateia, não me enche de raiva, não me faz querer procurar outro alguém. Pensar isso é como pensar no almoço de domingo, que provavelmente vou perder por dormir demais. 

Faz parte. Acredito realmente que algumas pessoas nascem para morrer sozinhas. Você provavelmente não é um desses casos, mas acho que sou. E tudo bem. Todo mundo nasce com um caminho para traçar. Eu já tenho demais, alguma coisa precisava faltar para haver justiça cósmica, certo?! 


crônicas

Não deixe de se alimentar

12:10

Estou com fome. Sendo sincera, vivo uma relação de amor e ódio com minha alimentação. Não estou doente, só não tenho vontade de comer (na maior parte do tempo). Então é estranho perceber a necessidade física de energia. Talvez eu esteja tão desanimada porque ando tendo refeições dignas apenas nos fins de semana.

Às vezes, tenho medo de ser como Theodore ou como a Hannah. Nossas semelhanças me assustam. E minhas mãos sempre frias me assustam. Mas, não o bastante. Nunca é o bastante.

Até que ponto é possível distinguir entre o estar bem e o caminho sem volta? Existe caminho sem volta? Eu não sei nenhuma das respostas.

Eu tento manter as mentiras longe das minhas palavras, mas é tão complicado dizer apenas a verdade. Ninguém quer realmente saber, porque ninguém quer se responsabilizar. Todos estão muito ocupados. Esse tipo de incômodo deve ser tratado em silêncio para que a não haja pertubações na rotina. E se me perguntarem o que realmente está acontecendo, um sorriso é uma boa resposta como qualquer outra. 

A fome já passou. Talvez mais tarde eu faça pipoca.

crônicas

Infeliz a minha maneira

03:30

Já faz um tempo que sei que preciso escrever sobre isso. Acredito que todas as histórias precisam ser contadas, inclusive as tristes. Mas, nunca contei isso a ninguém. Não é um segredo, só não é um assuntou muito amistoso. E sendo sincera, eu sempre quis proteger a imagem que as pessoas possuem daqueles que eu amo. Mas, eu preciso falar sobre isso. Preciso escrever. 

Aprendi que o amor é algo completamente altruísta. Creio que as pessoas comuns não entendem a extensão dessa sentença. Amar é não desistir. E não existe razão dentro disso. Amar é abrir mão de si mesmo e aceitar as mazelas do próximo. 

Amar é perdoar seu pai alcoólatra, porque ninguém escolhe ficar doente. Porque um comportamento, aprendido e ensinado como um alívio para uma ferida mais profunda, não pode ser severamente condenado. Amar é saber que se ele tivesse forças mudaria o passado. Amar é saber que mesmo se ele ainda perdesse os sentidos em bares deploráveis, ele ainda te amaria. Ele ainda seria seu pai que te ensinou a desenhar e que sempre, sempre te ouviu como se tudo que você falasse fosse de uma sabedoria ímpar. 

Amar é perdoar sua irmã que se apaixonou por um traficante aos dezesseis. É amar a menina que ela teve naquele mesmo ano, e que hoje é uma fonte inesgotável de alegria. Amar é perdoar todas as vezes que ela fez sua mãe chorar. É deixar de lado todas as lembranças dos ossos proeminentes e das fugas inesperadas. Amar é proteger as outras três crianças que vieram depois. Amar é não aprovar o comportamento destrutivo que parece não ter fim. Amar é se afastar, mas deixar que ela saiba que você vai estar sempre lá para perdoar de novo, de novo e mais uma vez.

Amar é entender todas as horas que sua mãe trabalha além da própria força. Amar é ser grata e saber que, sem ela, talvez a morte, a depressão, o desespero, já teriam te alcançado. Amar é não se ressentir por ela ter criado tantas crianças de pais ricos e não ter tido condições de te ajudar na lição de casa. Amar é saber que ela fez tudo por todos. Amar é saber que sem ela a família não existiria.

Amar é não condenar o próximo pela ignorância. É agradecer pelo bolsa família que já te ajudou no passado e defender a transformação social hoje. Amar é encontrar os filhos de ricos criados por mães empregadas e ter paciência para explicar como o mundo realmente é. 

Ele é faminto amigo. Ele é doente. Ele é assustador. As dores que você sente de barriga cheia são piores nas casas afastadas que estão no escuro. Amar é ter esperança de que a pobreza vai deixar de ser invisível. Amar é sempre, sempre lembrar do lugar de onde partiu. Amar é lutar para que as coisas mudem. Para pais, mães, irmãs e crianças que ainda não sabem de nada do mundo, mas que conhecem demais sobre a dor. 

Eu tenho um final feliz para contar. Se você me conhece já sabe disso. Mas, eu imploro: veja! Enxergue as pessoas invisíveis. Faça o bem em nome de Deus, Maomé ou do Lula. Qualquer um, eu não me importo. Eu só preciso que você faça alguma coisa em relação aos nossos tormentos. Ninguém liga, mas eu preciso que você seja diferente. Eu preciso do fundo do meu coração que o álcool, as drogas e o trabalho excessivo pare de matar os pequeninos desta nação.

Por favor! Faça por mim, por você e pela sua família. Porque eu sei que existe uma chance gigantesca da sua história ser parecida com a minha. 

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Carta aberta

22:26

Por que você parte meu coração? Você não vê que isso está nos matando? Você não enxerga que esses anos parecem um tormento interminável? Sempre acredito que dessa vez vai. Dessa vez vai ser diferente. Mas, não. Você sempre me decepciona. 

E o pior de tudo é que eu não sei o que sentir. Te amo pelo laço que nos une. Te odeio pelas feridas que você aflige as pessoas mais preciosas deste mundo. Eu sei que sua vida foi penosa, mas a essa altura você já teve muitas, muitas chances de transformar toda a maldade, a miséria, a desesperança em algo bom. 

E se eu consigo levantar todos os dias e caminhar, por que você não consegue? Você acha que sua vida foi difícil, mas foi você quem escolheu o seu caminho. O que eu escolhi? Eu escolhi acordar na madrugada e saber que você não estava lá? Eu escolhi ouvir vozes exaltadas, sendo esquecida em bancos de escola e em quartos escuros? Eu escolhi te ver definhar, depois enxergar a carne voltado, como se estivesse saudável outra vez, só para depois ver os ossos proeminentes novamente? Eu escolhi amar as pessoas que você colocou no meu caminho apenas para ver você as deixando para trás, como se fossem mais um dos seus pertences que foram perdidos tantos anos antes?

O que eu faço com você? Eu te rejeito? Como posso? Como posso deixar de te amar se você é parte de mim? Mas, você não parece me amar. Eu te olho e penso que você não ama ninguém. Nem a si mesma. Por quê? Você tem tanto potencial. Poderia ser qualquer coisa. Mas sempre escolhe colocar a culpa no passado pelos seus erros constantes. Você já notou isso? Já notou que sempre faz as mesmas coisas. Você está dentro de um ciclo de destruição, mas porque nos arrasta junto?

Estou tão cansada que já quis te esquecer. Tão cansada de ser espectadora do seu espetáculo de morte que já quis te riscar das minhas preces. Eu só queria que você pensasse um pouquinho. Eu tive família? Eu me lembro claramente de todos os anos sendo deixada de lado por estranhos. Eu deixei de amar alguém por isso? A negligência, o alcoolismo, a necessidade de sustento que impedia o cuidado diário. E tudo isso com o agravante de não saber se você tinha um teto. E depois suas crianças. Eu tenho pavor do que pode acontecer a elas tento tão menos do que eu tive. De todas as pessoas você devia saber como é. De todas as pessoas você devia ser a primeira a lutar pelo seu sangue.

Eu estou cansada. Já não acredito que você possa mudar. Eu te amo, mas não te suporto mais. Eu não tenho forças para suportar. E você nem liga. Acho que nunca ligou. 

crônicas

Levanta-te e anda

21:22

Já escrevi tanta coisa, mas tudo parece tão irrelevante, trivial. Não sei se as pessoas percebem o quanto nossa rotina é superficial e vazia. Nós somos pessoas egoístas de corações impuros que finge se importar. Fingimos ao nos comovermos com tragédias à milhas de distância. Mas, quem se importa com a tragédia ao lado? Qual foi mesmo a última vez que perguntei ao meu vizinho se ele precisava de algo? Acho que nunca. 

Mas existe dentro de mim esse querer. Um chamado maior do que a minha maldade que me enche de esperança. Uma voz maior que meu coração imperfeito que me motiva a tentar. Eu tento me importar. Por isso sigo as regras, me esforço para deixar meu temperamento controlado. Mas, minha vida passa como se eu estivesse sonolenta, tentando acertar os passos, mas sendo impedida pelo peso nos olhos. 

É necessária muita coragem para acordar. Porque eu preciso te contar algo: o mundo é mau. Estou chorando muito por saber disso. Meu coração dói profundamente. Nós vivemos em um lugar onde uma mãe abandona seus filhos como se eles fossem coisas. Você já se aproximou de uma cachorrinha depois de ela ter dado a luz? Ela defende seus filhotes, então como pode uma mãe, de uma raça supostamente superior, abandonar seu próprio sangue? Abandonar sua herança?

Existem muitas crianças vivendo sem amor. Incontáveis pequeninos que nunca terão uma chance. Meninos e meninas que não são vistos, que estão aí, do seu lado e permanecem invisíveis. 

Eu quero ser a pessoa que vê. Eu quero fazer algo. Talvez isso comece com minhas lágrimas, minhas preces, mas quero ir além disso. Quero ser mãe, tia e irmã para quem nunca teve uma família. Isso não porque eu sou uma boa pessoas, mas porque eu preciso ser. Porque as crianças esquecidas precisam de alguém que seja. 

Tudo começa com acreditar. E eu acredito que os órfãs desse mundo que mendigam de fome podem ter um futuro diferente. Eu acredito que casos perdidos não existem. Eu tenho fé de que se nos levantarmos, se abrirmos nossos olhos, se tivermos coragem para enxergar a podridão do mundo, nós podemos fazer algo para que ele não gere tanta morte, mas passe a exalar vida. Eu acredito.

crônicas

Amanhã eu volto

19:05

Já faz um tempo que as coisas permanecem sem mudanças significativas. Sinto saudades do passado, mas é enlouquecedor não dar um passo para frente no presente. É difícil viver assim. Não entendo as pessoas que se acomodam. 

Eu não devia fazer isso. Proclamar continuamente que estou de partida. Mas, sei que não posso viver a mesma vida por um prazo prolongado. Sei que nasci para transformações constantes. É só a maneira como as coisas são para mim. Não há nada de errado, apenas essa vontade de ver um cenário diferente. 

Mas a vida possuí amarras poderosas. É preciso saber para onde se está indo antes de partir. Mas, eu não sei. Só sinto que em breve descobrirei. Ao menos espero que sim. E se eu partir de fato, não sinta minha falta. É bom guardar memórias com um toque de saudade, mas não faz sentindo lamentar por alguém que precisa estar em movimento para ser feliz. Eu estou sempre dizendo adeus, então não fique me respondendo com olás.

Apenas, fique feliz por mim. Eu sempre estou por você. Às vezes, ver a sua alegria é o único motivo para os meus sorrisos.

Fungos na pia

22:15

Ainda não aceitei o fato de que sou adulta. Pago as contas, trabalho de oito às cinco, mas é muito estranho. Simplesmente não vi quando isso aconteceu. Talvez tenha sido quando me mudei da casa de meus pais, um ano atrás. Foi tudo tão repentino. Consegui um estágio e logo estava em uma república.

Era horrível. Garotas estranhas que enchiam o apartamento de desconhecidos. Foram meses apenas existindo, evitando criar raízes em um lugar tão desagradável. Mas, as coisas melhoraram. Consegui um segundo estágio. Caminhava quarenta minutos e corria para não me atrasar. Trabalhei como se soubesse mesmo o que eu estava fazendo. Era muito bom. Eu gosto de manter a mente ocupada.

Agora tenho um emprego de verdade. Terminei a faculdade. Moro com meu melhor amigo. Mas, essa não parece ser razão para que eu tenha conquistado meu crachá de mulher crescida.

Foi quando instalei meu próprio chuveiro? Foi quando comprei a minha primeira cama sozinha? Talvez tenha sido quando descobri os fungos na pia. Tão nojento! Os dedos dos meus pés se encolhem só por imaginar. De um laranja doentio, causados pelo excesso de umidade vinda do vazamento. Não tive outra opção além de limpar. Usei minha voz de negociante para encontrar alguém que entendesse de canos para concertar.

São coisas tão pequenas que me desafiam agora. Acertar o tempero para que o arroz ao menos pareça comestível. Entender que o banheiro precisa ser lavado e que as roupas não podem ficar jogadas em qualquer canto. Lavar a louça não é um problema, o difícil mesmo foi ficar seis meses sem geladeira, agora sei o valor de um bom copo de água gelada.

Talvez esses incômodos me tornem mais forte. Já descobri que aguento mais do que imaginava doze meses atrás. A vida não é perfeita, mas vencendo cada pequena batalha do dia a dia me descubro uma mulher mais capaz.

A solidão não me quebrou. Os constrangimentos não me pararam.

E tudo isso é tão banal, tão coisas pelas quais todo mundo passa, que nem parece algo grande.

Mas é. Crescer é a coisa mais grande que acontece com a gente. É a coisa mais inconveniente e animadora que existe.

Inevitável e revelador.

É descobrir quem a gente realmente é. E eu gosto de quem sou.


Gosto de ser a mulher que me tornei.