Mais de sessenta dias

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Eu estou com sono amor. Estou a sessenta e três dias com sono e uma dor de cabeça infinita. A sessenta e três dias te escrevendo desse quarto do qual eu só saí para ver se você me deixou uma carta.

Eu me lembro da sua letra, inclinada e pequena, como girassóis. Lembro de como você escrevia saudade e sublinhava amor. Lembro dos poemas que nós compúnhamos juntos no balanço da fazenda. Um verso, um beijo. Outro beijo, outro beijo, e talvez outro verso.

Eu sei que eu concordei com essa distancia. Mas um oceano não precisava engolir o nosso amor. Nós escolhemos as cartas porque seria mais romântico, como foi com os seus pais. Mas depois, quando o que eu só recebia do carteiro era um não, eu acabei deixando para lá. Deixando você para lá.

Eu ainda não entendo porque você foi pro outro lado do mundo. Ainda não entendo porque você não me chamou para te acompanhar. Talvez porque eu iria. Eu atravessaria todo esse oceano por outro poema, por outro beijo.

Sessenta e quatro dias agora. Você sempre brigou comigo por escrever na madrugada, mas agora nem isso temos mais, nossas brigas tolas.

Eu tinha esperança que esse amor sobrevivesse. Esse romance que começou quando você me pagou um lanche na escola e que nos acompanhou por tanto tempo. Esse amor que poderia ser tão maior, que poderia ser para a velhice. Mas é bom que você tenha partido agora. Eu agradeço por você não ter esperado uma vida inteira só pra descobrir que não me ama no fim. De certa forma eu sou grata porque agora eu me sinto livre para encontrar o meu lado do mundo.

Apenas seja feliz. Me escreva quando sentir saudades e depois... não me envie. Não foram apenas sessenta e quatro dias, mas também todas as vezes que você escolheu guardar as palavras só para você, sem intenção de compartilhar. Foi esse nosso problema, nós deixamos de escrever poemas, e o nosso amor ficou lá, abandonado na banco da fazenda, junto com a nossa juventude e nossos sonhos de juntos para a vida inteira continuar.

Continue a nadar!

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