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2017, o ano do kpop

22:26

Bem ARMY.
Já comecei mentindo no título. Descobri esse mundo musical em 2016. Quando se anda em grupos de nerds variados, tem sempre aquele colega que já desbravou o mundo asiático e te incentiva a assistir animes sem final e a enlouquecer com garotos dançantes de cabelos coloridos.

Então, foi em um clipe meio estranho, meio fofo que me apaixonei pelas cores pasteis e pela estética sul coreana em geral. O mv era de um girl grup, e nele as meninas meio que acabavam com a raça do Ken (nunca me lembro o nome delas, sorry). Claro que, como parte da massa, me joguei com tudo na terra da dança sincronizada ao descobrir Blackpink e o famigerado BTS.

É legal se sentir parte de uma febre teen. As ARMYs são assustadoras, mas ao mesmo tempo me rendem muitos momentos divertidos pelo twitter. Na minha época (como me sinto velha) o que despertou o amor incondicional foi a Bella e seus vampiros brilhantes. Para os adolescentes de hoje em dia, kpop parece mais divertido.

Não achei que estava tão envolvida até sair aquela listinha de músicas mais escultadas no spotify. Veja bem:

GD utt. CL minha dona.
A única coisa que quebra a supremacia coreana na minha playlist é a amada Supercombo (e Glee, amor eterno que nunca fica de fora). Olhar esses dados é um bom tapa na cara da Ana de dois anos atrás que só escultava Simonami. Ainda amo minhas bandas semiconhecidas, mas meio que deixei de lado esse negócio de restringir o que toca nos meus fones. Kpop me deixa feliz, e é incrível um gênero musical ter esse poder.

Tá, mas não só de kpop vivi. Em tópicos:
  • Escultei muito a já citada Supercombo, amo toda a discografia, mas Rogério foi show, só que já ouvi tanto que meio que enjoei das músicas a essa altura. Mas, vale a pena escultar Monstros e Morar.
  • Paramore também veio com uma vibe bem tragicómica que combina muito com minha personalidade. Dancei e chorei muito sim ouvindo a banda que sobreviveu a passagem da adolescência (26 é a melhor música do álbum).
  • Simonami acabou já faz mais de um ano (para a minha tristeza), mas a Lay, a Lio e o Jean voltaram com Tuyo (para meu consolo). A música Meus 15 é meu hino pessoal. Sério.
  • Sempre amei hip hop for real. Mas, só depois de assistir a falecida The get down que me atentei que essa cultura tem uma história. Esse ano escultei muito o que a galera fazia nos anos oitenta, destaque para The message do Grandmaster Flash/The Furious Five. Um clássico que faz denúncias ainda relevantes.
  • E minha favorita da vida, a banda que sempre sonhei em ver ao vivo, anunciou um período sabático. Poxa Oficina, tava tão legal entre a gente! Por que você foi me deixar depois de me dar esperança de um álbum show seguindo o estilo de João? Bem triste, porém conformada e feliz por ter vinte anos de música para revisitar.
É engraçado fazer um post de blog falando sobre música a essa altura da minha vida. Mas, para resumir, eu não sou uma pessoa de fases. Oficina G3 conheci quando ainda nem sabia falar direito, e está na minha playlist até hoje. Então meio que acho que o kpop vai continuar. E não é só a mistura do popular farofa, sendo sincera, o que de fato me conquistou foi a dança de Dope e o rap do Suga (eu até desenhei ele! Não desenhei nada esse ano, mas o Suga tá aí "eternizado"). Os sul coreanos inventaram um trem que junta tudo que eu amo: dança, rap e cabelos coloridos. Obrigada!

Por hoje é isso. Talvez o meu lado blogueira ainda dê as caras esse ano, mas deixo aqui um até logo com esperanças moderadas. 

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Era para isso ser um blog

23:53

Porque parei de postar o que desenho por aqui?

Já faz mais de um ano que não escrevo aqui como deve ser um texto de blog. Acho que eu precisava desse tempinho. Foi um ano no qual nada saiu como planejado, e a Ana blogueira de quatro anos atrás está bem no passado. Agora eu tenho um trabalho de gente grande e um sonho de infância que não parece mais próximo.

Eu nem sei se ainda existe alguém que volta aqui para ler o que escrevo. Com as crônicas e os contos, fui muito sincera com relação ao que eu sentia, mas fechei a janelinha do diálogo. Talvez no próximo ano eu tente iniciar uma nova conversa com novos leitores, mas sem promessas. Estou um pouco cansada de metas para o novo ciclo e coisas assim.

Mas, 2017 foi surpreendente. Olhando o saldo agora, acho que foi o ano no qual mais escrevi. O wattpad acabou virando meu objetivo principal, enquanto o A vida é poema sobrou como um projeto para o qual eu olhei uma ou duas vezes a cada mês. Mas, com a distância dos dias e das semanas, olhar o pouco que escrevi aqui me dá um certo orgulho. Eu sinto que tudo que escrevi esse ano tem importância. Se não para a sociedade, o mercado, ao menos para o meu coração que esteve exposto a cada palavra.

Eu acho que nunca vou ser reconhecida pelas minhas palavras. Eu sempre quis ser para alguém o que as autoras que eu leio são para mim: um consolo nas madrugadas de insônia. Eu quis fazer alguém rir sem querer dentro do ônibus em um calor escaldante de fim de dia. Eu quis fazer meus leitores chorarem, para depois se sentirem com um peso a menos ao saber que, mesmo histórias tristes, podem aquecer o coração. Agora na vida adulta, sei o quão distante essas vontades são. Sei que em um cenário realista, ninguém nunca vai se importar com o que eu escrevo.

Porém, nesse ano, no qual senti o pânico e a ansiedade tão próximos, cada uma dessas palavras fizeram diferença para mim. E caramba! Foram minhas companheiras em várias madrugadas insones (incluindo essa). Por isso sou grata. Por isso agradeço a você, leitor que talvez tenha dividido esses doze meses comigo sem que eu tomasse conhecimento.

Resumindo: eu estou bem. As coisas não são fáceis, mas tenho uma vida privilegiada. E mesmo que os dias ruins sejam comuns, a paz de saber que eu tenho esse refúgio é um conforto. Com contos, crônicas ou textos estilos blogosfera 2009, eu ainda estou aqui. E, por enquanto, estar já basta.

crônicas

O que peço antes de dormir

23:30

Eu quis tanto uma espécie de resposta. Sempre fui a pessoa que fazia as perguntas, mas meus questionamentos deixaram de ser apenas um escudo para se tornarem uma espécie de salvação. A minha fé é baseada na dúvida, na incerteza, na insegurança, que surgem no meu coração e encontram respostas no mestre que sempre me responde de formas contestáveis para serem comprovadas logo depois. A confiança é ter intimidade para fazer todo tipo de pergunta. Pelo menos para mim.

É por isso que minhas crises não são um segredo. É por isso que quando me vejo rodeada de casais, não consigo evitar questionar o que existe de errado em mim. Porque o erro é sempre de dentro para fora. O mal da sociedade começa na gente que não ficamos indignados com piadas racistas, que jogamos lixo no chão sem pensar nos bueiros que irão transbordar no verão chuvoso.

Mas, a cada dia é uma nova certeza de que a solidão não é passageira. Faço planos de sucesso megalomaníacos, apenas para ser rejeitada em mais um email de trabalho rumo aos sonhos que nunca chega. Então coloco bem alto qualquer hip hop dos anos noventa para não ter que pensar. Girls you know you'd better watch out!

E ligada na imagem do espelho eu consigo ver. Melhor do que ninguém, posso apontar cada falha que me prende na exclusão do meu quarto. Eu tenho medo de ter alguém ao meu lado, e estou sempre aterrorizada de ter que viver toda a vida sozinha.

Eu quero conquistar o mundo. Quero fazer algo mais do que apenas me manter sentada oito horas por dia. Mas, antes de dormir, sempre peço por alguém que tenha coragem de enfrentar o fosso, o dragão e o jardim de espinhos que construí ao redor do meu coração. Eu não preciso de ninguém, mas quero uma mão segurando a minha quando as coisas ficarem difíceis demais.

Quero uma mão que não se intimide pelas minhas fortes opiniões. Alguém que não venha com merdas do tipo: "Deus nunca escolheu uma mulher para liderar" (BULLSHIT). Alguém que vai me ajudar a cada mês quando aquela vontade incontrolável de mudar os móveis de lugar chegar.

Eu sei que existe algo de errado em mim. Eu quero alguém que também saiba disso. Quero alguém que também seja errado em certo nível. E, acima de tudo, quero alguém que permaneça. Mesmo sendo utópico, quero alguém que ao menos tenha a intenção de ficar.

inverno

Inverno em dezembro

19:10

Aparentemente eu ando com medo até de escrever. E, Senhor! Já é dezembro. E compartilhando aqui um segredo: não fica mais fácil. Acho que no fim do dia minhas palavras podem soar ingratas, e às vezes sou mesmo. Mas, eu só ando cansada.

Acaba que ninguém se importa. Nem eu me importo. E se caso os meus ossos ficarem mais aparentes, aquele meu lado autodestrutivo vai ficar feliz, ao menos. Mas, essas necessidades não parecem mais me alcançar. E sinceramente não consigo encontrar aquela parte de mim que um dia já se importou. 

Eu só quero permanecer nesse estado de torpor por mais algum tempo. Bem naquele método: afasto as pessoas antes que elas tenham chance de partir. Em alguns momentos distribuo alguns sorrisos ao observar a felicidade alheia, para logo depois ficar insatisfeita com a solidão. Nesse ciclo, eu vou para a insensibilidade antes que eu me torne mais humana no sentido pejorativo da palavra. Não quero ser humana se isso se associar a autopiedade e a inveja. E na maior parte do tempo não sou.

Ainda sou capaz de sentir algumas coisas mais profundas. O amor fraternal não dá para ser apagado completamente. Não no meu caso. Mas os laços que a vida forja, são feitos de cetim. Você puxa um fio e ele logo desfia perdendo o brilho e a forma. E não dá para se agarrar a isso. Não consigo me agarrar a nada.

Aqueles sonhos ficam cada dia mais indistintos. A minha tábua de salvação vai sendo levada pelas ondas e os dias se tornam cada vez mais vazios. A vida com propósito antes planejada vai se transformando em uma sucessão de rotinas feitas por alguém que não entende de dor nas costas.

Em alguns momentos eu quero ser mais do que uma música triste escrita por alguém que já morreu. Em alguns momentos eu desejo ser mais do que minhas inseguranças e medos paralisantes. Mas, quando o mal externo colide com o que vive dentro de mim, fico no fogo cruzado tentando entender como ainda continuo de pé.

Mas, eu continuo. Minto dizendo que se um dia alguém me ler vai fazer diferença, mas as pessoas já leem. No fim do texto isso não muda em nada a fraqueza que não consigo afastar física e mentalmente. E a cada palavra que não verbalizo, o mundo continua sem mudanças. As coisas nunca vão mudar. 

contos

Faz frio sem ela

13:28

Amigo, fazia tempo que aqui não chovia tanto. A água trouxe aquele frio fora de estação. Faz com que eu deseje um dia inteiro de leituras e palavras sem muito sentido, com diálogos que ninguém irá ler. 

Eu tenho medo. Fingo que não, mas a cada dia ele consome um pedacinho da minha esperança. Talvez seja o momento de desistir dos sonhos e apenas aproveitar a vida pacífica que tenho o privilégio de desfrutar.

Continuo pensando nela. Naquele jeito peculiar que só olhando bem de perto a gente consegue perceber. Lembro sempre de como os bolsos dela estavam cheios de lixo, ela simplesmente precisava descartar as coisas na lixeira. É o jeito certo, e ela era assim com tudo na vida. Tudo precisava estar no devido lugar. 

Mas, amigo, onde é o meu lugar? Nessa cidade que esfria no verão? Do lado dela e das regras que ela cria para sobreviver? Por que a gente precisa viver em um pais tão grande? Eu só queria ser um cara que pega um ônibus e duas horas depois já pode ver a mulher que ama. 

Mas, não sei se ela quer me ver. Eu devia estar escrevendo para ela e não para você. Mas, eu tenho medo amigo. Estou com frio e tenho medo de que nas regras dela o meu papel seja continuar distante.

contos

Das palavras furacão

23:39

Ela era a garota tempestade em uma terra árida. Sufocava minuto a minuto sem encontrar um alívio. Planejava fugas diárias, mas sempre terminava no mesmo cubículo. 

Com expectativas mortas, as plantas secavam na sacada. Pode alguém que está definhando alimentar algo? Ela não acreditava. 

E ao voltar ao apartamento vazio, ela sempre encarava as paredes vazias se perguntando o que raios era tudo aquilo?! O que ela ainda estava fazendo naquela vida oca, seca e solitária?

Olhar para o próximo era reconfortante, afinal todos pareciam ter sede. Por isso ela fechava os olhos, dormia, para depois viver mais um dia de rotina.

Era bom relembrar os sonhos coloridos do passado. Ela quis ser professora, bailarina, mãe. Ela quis ser. Quis ter. Mas, só o que sobrou foram as louças para lavar na pia.

E estava tudo bem, porque quando tudo parecia insuportável, quando ela sentia que a desidratação a levaria à cova, ela sentava e escrevia, afinal sonhar no papel era um prazer secreto. Ninguém poderia excluir de sua sociedade o que ela de fato queria.

No fundo, fundo, fundo ela se agarrava às palavras. Se fundia às sentenças de forma que não existia maneira de separá-la de suas ilusões escapistas. Ela bebia do papel, do alfabeto, das folhas oxidadas de livros baratos. Tempestuosamente sobrevivia. Se derramava tentando ser mais do que uma autora esquecida.

"Eu vou escrever para viver.
Da palavra eu vim, para a palavra vou.
Eu me calo, mas em silêncio ainda grito:
EU SOU AQUELE LIVRO
QUE TE DEU UM MOTIVO
PARA VIVER OUTRO DIA."

crônicas

Num beijo morrerei

21:07

Amor, acho que o mundo já acabou. Muitos dizem que a terra vive ciclos, e talvez a gente tenha chegado no momento da extinção. Não sei se isso me deixa triste ou aliviada. Todo dia é um novo luto a guardar. Não sei como lidar com isso.

E a gente continua votando em pessoas inescrupulosas. A gente continua com essa cegueira seletiva, que condena alguns, mas que finge não ouvir quando os gritos partem da casa ao lado. A gente continua atravessando a rua para evitar o faminto. Continuamos no nosso ciclo de indiferença.

O terrorismo, a loucura, a natureza matam. Mas, a fome, a miséria e a depressão também. E eu não posso ser um escudo humano, mas eu posso ser um porto seguro para quem está ao meu lado. 

Mas, a gente não se importa. Não nos importamos com nosso próprio bem estar, e o próximo fica a cada dia mais distante. Estamos morrendo, amor. Estamos nos matando.

Seria bom ter um fim digno. Talvez a guerra nuclear aconteça amanhã, e seria só isso? Desapareceríamos sem ter feito nada de bom. O universo nem notaria a nossa inexistência. E quanto a esses fatos que fogem do nosso controle, afinal ditadores escalam o poder sem permissão, a única coisa que podemos fazer é pedir aos céus que a gente ainda tenha chances de redenção.

Mas, amor, eu não sei se realmente resta em nós algo de bom.

crônicas

“Nunca deixe que as palavras de ódio falem mais alto que as palavras de vida”

12:33

Eu sempre fui uma escritora. Não no sentido profissional da palavra, mas no sentido de escrever sobre as coisas. Pensamentos, sentimentos, rotinas, listas. Eu respiro e eu escrevo. Isso é quem eu sou. Escrevi essa frase título ano passado, em um contexto no qual um de meus personagens abre seu coração e finalmente fala mais sobre si mesmo. Às vezes, acontece isso. Revisando as coisas antigas reencontro um pensamento do passado que faz mais sentido agora. E não permitir que as palavras de ódio sejam propagadas nunca foi tão importante.

Acho que ficaríamos entendiados em um mundo mais simples. Nós precisamos de peculiaridades que nos destaquem e nos tornem especiais. No fim, todos querem ter aquela qualidade que nos distingue nesse vasto universo de galáxias infinitas. E da mesma forma que o universo se expande, nós necessitamos, nossos corações precisam, de progresso.

Às vezes as coisas retrocedem. Em alguns momentos tropeçamos e nos vemos caminhando para trás. A humanidade em alguns momentos parece regredir, como quando as pessoas vão às ruas clamar por morte aos seus próximos. Às vezes, a gente perde a linha, dirigimos na contramão de uma rodovia cheia de curvas, ultrapassando vinte vezes o limite da velocidade. Não é aceitável, e pode acabar nos levando a uma tragédia terrível, mas olhando para a história podemos ver a facilidade com que isso acontece.

E, sim, é triste. É desolador olhar ao redor e ver o que está acontecendo com o mundo. Mas, o que podemos fazer efetivamente? Quais são as mudanças que estão ao nosso alcance? Humanos são animais com personalidade, caráter, diferentes em suas semelhanças. Existem bagagens que carregamos relacionadas ao lugar no qual nascemos, a cor de nossa pele, as oportunidades que recebemos. Essas bagagens são parte da maneira na qual vemos o mundo. E talvez se só recebermos dor, isso acabe por eliminar a nossa capacidade de enxergar amor.

Então não é racional negar que o mundo anda mal. Seria mentira dizer que o ódio morreu. A miséria e a fome estão vivíssimas no nosso país. Precisamos nos lembrar disso diariamente. Precisamos lutar contra isso diariamente. E talvez a forma mais justa seja silenciando o ódio. Talvez devêssemos gritar com todos os pulmões sobre o amor. Porque quem ama cuida, alimenta, acaricia, faz ninar. Quem ama investe, leva à escola, ao médico. Quem ama luta e faz lutar.

Quem ama não vira as costas para os problemas, mas entende que é preciso esforço e paciência para saná-los. Quem ama sabe que debaixo dessa capa passageira que reverte nossos corpos existe a mesma carne, o mesmo sangue, os mesmos ossos.

O amor não enxerga classes sociais. O amor não descrimina sotaques. O amor não pode ser separado por muros ou combatido com mísseis intercontinentais. Quanto à dor e ao mal deste mundo, provocada por humanos tão incorretos e tão impuros, ao gritar nas ruas ódio a sua própria espécie, é nosso papel como seres conscientes não abrir mão. Não podemos desistir do sonho de viver decentemente, independente de qualquer bagagem individual. Nossos semelhantes criam o problema, por isso precisamos de coragem para enfrenta-lo.

E a cada momento em que o ódio for verbalizado, precisamos gritar mais alto. Porque o amor vence. O amor é nossa arma de combate e nosso remédio para a cura. O amor é a nossa única chance de continuar a criar e a dividir palavras de vida.

crônicas

É quarta mais uma vez

23:22

Caramba! É mesmo 2017? Eu tenho mesmo vinte e dois, VINTE E DOIS, anos? O tempo me deixa a cada dia mais confusa. Às vezes, fico pensando como as pessoas no futuro nos enxergarão. Somos os novos anos vinte? Vai saber...

Estava mais uma vez lendo os textos antigos. É estranho pensar no volume de palavras que tenho acumuladas. Quero dividi-las. Antes eu escrevia só para mim, mas já sou solitária demais para tornar a arte mais uma atividade introspectiva. A poesia é para ser sentida, os desabafos verbalizados, os livros emprestados. Nós não escrevemos para terminarmos esquecidos em estantes.

Talvez por isso eu esteja me empenhando tanto em finalizar os volumes que já comprei. De clássicos até romancinhos clichês. Quero dar a esses autores mais do que só dez por cento do preço de capa. Eu comprei cada livro, por isso vou dedicar a eles minha atenção.

Secretamente espero que alguém tenha para comigo a mesma consideração. Eu realmente preciso que essas linhas não morram comigo. Mas, não sei. Talvez o futuro nunca exista. Talvez as pessoas sejam extintas antes de qualquer coisa que eu digo se torne relevante. Não extintas no sentido de morte, mas sim no sentido de não se importarem com coisas banais como textos em blogs.

Ainda é agosto, mas já sinto o peso dos dias de verão entrando pela sacada. Talvez o tempo passar tão rápido seja bom. A cada dia que passa meu sonho/objetivo/esperança parece mais próximo. Só espero que quando esse anseio se concretizar as horas congelem. Que eu encontre junto desta dádiva o prazer de apreciá-la lentamente. 

Uma feliz quarta-feira para você que já encontrou seu anseio e é capaz de apreciá-lo (em algum momento a gente realmente encontra?). 

textos

Aquele perfume passou por aqui

17:01

Cheiros são engraçados. Um ambiente antes barulhento se torna silencioso, mas o  cheiro permanece, como um lembrete constante dos momentos que só eu me lembro que aconteceram naquele lugar. 

Cheiros são leais. Aquele livro que li na adolescência ainda faz o meu nariz se enrugar. Ainda faz eu me sentir aquela garota de quinze anos sozinha, que tinha nas palavras a única companhia. 

Cheiros são estranhos. Eu visto a roupa da mamãe e me sinto em casa, mesmo sabendo que muitos quilômetros nos distanciam.

Cheiros são intimidadores. A sala cheia de senhoras que julgam minha aparência faz os meus pulmões se apertarem. Elas passam a sensação de limpeza rígida.

Cheiros são engraçados. Eles chegam a mim como uma lembrança distante e vívida. É difícil ignorá-los. Às vezes eu os busco para não deixar que as coisas morram. Às vezes as coisas morrem e eles permanecem. 

Cheiros são memórias em formas físicas tentando nos arrastar de volta para o passado.

crônicas

Sem silêncios

22:41

Amigo, a depressão vai acabar matando toda a nossa geração? Já ouvi por aí que é o mal do século. Depois de ver tanta gente indo embora de repente (mas sem ser de repente) entendo a extensão desta afirmação. 

É difícil, eu sei. Como a gente consegue tratar isso? Como que se salva alguém que está à deriva, sem acreditar que possa existir um novo porto seguro? A gente ama? Diz que vai ficar tudo bem?

Às vezes não fica tudo bem. E às vezes é difícil amar alguém que já não sente mais nada. Não sabemos realmente lidar com esse tipo de doença, de dor. 

Eu não sei o quanto devo revelar sobre o meu próprio coração. Já senti ele pesado demais, liguei para uma linha de apoio. Tinham cem pessoas na espera. Eu pensei que uma daqueles outras almas perdidas devia estar sofrendo mais do que eu, então abri mão do meu lugar na fila. Estava difícil, mas não era impossível para mim. E talvez estivesse insuportável para aqueles outros cem. 

Mas, pense bem, é a minoria que chega a pedir ajuda. Não é uma questão de coragem. Acho que está mais relacionado com nosso histórico, nossa personalidade. Existem pessoas que se desesperam gritando por ajuda. Outras sentem o terror em profundo silêncio.

A gente não pode aceitar o silêncio. Por isso eu escrevo, porque não consigo falar. Tirar de dentro os pensamentos ruins faz toda diferença na minha rotina. Eu nunca pensei na última consequência, na decisão sem volta, mas eu entendo quem chega a isso. Empatia talvez seja a palavra que a gente mais precisa.

Amigo, não tenha medo. É uma doença, mas não contagiosa. Você pode se aproximar. Você pode perguntar o que está realmente acontecendo. Você pode ouvir. Entenda o que essa alma precisa: consolo, compreensão, paciência, atenção, ajuda profissional. Note os detalhes e não minimize algo que pode levar alguém que você ama para longe, sem voltas. 

crônicas

Querido presidente

11:53

Não me importo com o tamanho do seu salário. Não ligo se você se chama João, Maria ou Carlos. O que realmente importa é você fazer a sua parte. Veja bem, eu faço a minha. Tomo cuidado com o que digo ou faço. Atravesso na faixa de pedestres (quando disponível), não jogo lixo no chão, promovo grupos de caronas para diminuir o impacto que minhas viagens constantes provocam na bendita camada de ozônio. Trabalho quarenta horas semanais para ganhar um salário que já saí do caixa eletrônico com destino: aluguel, condomínio, internet, impostos. Eu sou uma boa pessoa.

Mas, o senhor não me ajuda! Eu não peço muito, só quero que você me represente. Eu quero que você pare de se comportar como alguém que não enxerga as necessidades de quem te dá o poder. E entenda: a corrupção pode ter te levado longe, mas ela também te custa muito caro. Seja inteligente, use seu potencial de (segundo o padrão corrente, com a única exceção) homem branco privilegiado, enxergue que uma hora o mundo dá uma volta que te leva pro buraco.

A justiça divina é nossa única esperança. Brasileiro acredita e sempre alcança e, vale-me Deus! Um dia eu vejo essa elite insensível pagando o que me deve, desde que renderam minha bisa índia dizendo o que fazer ou quem ser. Roubaram terra, roubaram o conceito de SER HUMANO, deturbaram a cultura e as crenças. Colocaram meu sangue em uma posição de inferioridade. Pai mulato, pedreiro, trabalhador que nem cinto de segurança tem quando vai construir os prédios para os brancos. Mãe branca, loira, criada por si mesma, com o jeitinho brasileiro sobrevivia mesmo quando não tinha comida, empregada doméstica, mas com duas filhas com nível superior. Amém!

A fome não está longe. Ela não me pegou por uma geração, mas caro líder desta nação, ela ainda está nas casas vizinhas. Ainda vejo, pelo meu bairro, crianças se tornarem mães. Ainda vejo amigos morrendo por causa de coincidências: de estar no lugar errado, de viver no lugar errado, de ser do bairro com casas financiadas pelo governo.

E que governo! Eu lembro de falarem para minha mãe que iam colocar a gente na rua. Mas, como isso pode ser certo? Como pode fazer sentido? A gente nunca precisou de esmola, mas presidente, a gente precisava de uma chance, uma oportunidade, um teto qualquer enquanto a vida ainda era difícil demais, trabalhosa demais.

Você já teve dois empregos, cada um pagando meio salário mínimo? Você já precisou acordar de madrugada para pegar o transporte? Já teve que deixar suas crianças na creche para ir "panhar café"? Suas mãos são calejadas, sua pele queimada, seus ombros doem sempre (parecendo que vão doer para sempre)? Senhor presidente, o Brasil é lindo, com um povo que nunca desiste, mas faça a sua parte. A gente não quer esmola, a gente quer justiça. A gente precisa ser ouvido. A gente quer trabalhar (porque amamos e não sabemos viver de outra forma) horas dignas. A gente quer um tempinho para almoçar, nada exagerado, só o essencial para recuperar a forças e continuar "pegando no pesado". A gente quer chegar no fim da vida e ter casa, filhos com uma vida melhor do que a nossa, com a possibilidade de finalmente descansar e cuidar da saúde. Talvez você não saiba, mas o nosso luxo é olhar para o futuro e acreditar que vai ser melhor. Logo ali, daqui dez anos, a vida vai ser melhor. Mas, você precisa fazer sua parte. Porque o que o jornal está falando desde que surgiu a TV é que ninguém se importa. Mas, você deveria se importar.

Apenas, faça o seu trabalho.
Nós estamos fazendo o nosso, sem parar, sem descansar. 

crônicas

Hoje é um

17:00

De um a dez, qual é seu nível de satisfação hoje? Alguém me perguntou mais cedo. Eu respondi que o dia estava parecendo um seis. Ouvindo Loser e trincando os dentes, é difícil olhar ao redor com objetividade.

Eu já quis desaparecer. Já senti desespero em meio a multidão, como se o mar de desconhecidos pudesse me engolir. As minhas palavras geralmente são sobre solidão e morte. Sempre que sinto que alguém pode ultrapassar essa barreira de apatia e medo, me afasto. Como se eu gostasse da escuridão. Como se eu estivesse correndo para uma colisão por querer.

Eu não quero. Pelo menos quero não querer. Faz sentido? Eu não sei.

Acho que é comum pensar que o mundo seria melhor sem a nossa interferência. Não é como se esse não fosse um pensamento comum na adolescência. Mas, eu já passei essa fase. Eu já estou vivendo a tão prometida vida madura. Mas não vejo as cores. Não consigo perceber a luz entrando pela janela ao crepúsculo. Não consigo sentir o cheiro de verão com as chuvas no fim da tarde. Eu envelheci, mas meu corpo ainda parece ser feito de vidro. Meus olhos atravessam as coisas como se elas não existissem. Como se eu não existisse.

E eu existo? Ou ainda, eu estou viva? Porque eu sei que isso é real. Minha percepção ainda está ativa. Consigo sentir a mesa que apóia meus braços. Sinto o chão por baixo dos meus pés. Mas, isso é prova suficiente? Eu ter consciência da minha existência é o bastante para que minha condição seja de ser "respirante".

Daqui para frente, quem sabe, dentro de cinquenta ou sessenta anos, o plano é continuar a rotina. Mas, e quando o tempo se esgotar? O que poderá ser uma prova de que já estive aqui? Este texto? Não. Essas são só umas poucas palavras que serão perdidas no mar de informações inconstantes.

Mas, e daí?! Sempre estamos falando sobre o fim do mundo. Nos jornais, nas redes, nas rodinhas durante os intervalos do dia. "O fim está próximo." E talvez esteja mesmo. Terrorismo, descaso, violência, aquecimento global. Talvez o mundo acabe antes do meu prazo de validade. E no fim quem no universo se lembraria do William, da Clarice ou da Ana?

A resposta é ninguém. Ninguém se importa. Ninguém se lembrará. Ninguém sobreviverá.

crônicas

Realmente culpo o universo pela solidão?

23:24

Existe momento certo para escrever? Inspiração parece uma coisa tão mistica. Arte é mais do que isso. Criar é precisar tirar de dentro algo com o qual não conseguimos lidar sozinhos. Eu não sei lidar com tantas coisas. Sou cheia de assuntos inacabados.

Sempre fui uma pessoa meio solitária. Interação humana é desafiante. E sempre fiquei bem com isso. Aprendi muito cedo a lidar com meus problemas por mim mesma. Ninguém vem me salvar, então eu sempre salvei a mim mesma, lutando ou fugindo, eu sobrevivi. 

Mas, a que custo? Eu tenho uma vida muito boa. Privilegiada, nova classe média. Família legal, amigos gente fina, emprego estável, projetos em andamento. Mas, eu ainda vou para um apartamento vazio no fim do dia. Eu ainda tenho uma porção de primeiras experiências sem previsão de serem experimentadas. 

Às vezes, eu tenho medo de não estar vivendo de fato. Distraio-me sempre com tanta facilidade que não consigo determinar a diferença entre o ontem e o hoje. Fico com a cabeça tão longe que não consigo sentir saudade, ou melancolia. Eu só sinto indiferença em relação as coisas que nunca tive. E essa apatia me impede de desejar e buscar essas vontades esquecidas. 

Eu não sei se ainda sou a pessoa de alguns meses atrás. Ter uma afeição romântica parece tão sem significado agora. Eu provavelmente nunca vou estar ao lado daquele alguém especial outra vez. Pensar isso não me chateia, não me enche de raiva, não me faz querer procurar outro alguém. Pensar isso é como pensar no almoço de domingo, que provavelmente vou perder por dormir demais. 

Faz parte. Acredito realmente que algumas pessoas nascem para morrer sozinhas. Você provavelmente não é um desses casos, mas acho que sou. E tudo bem. Todo mundo nasce com um caminho para traçar. Eu já tenho demais, alguma coisa precisava faltar para haver justiça cósmica, certo?! 


crônicas

Não deixe de se alimentar

12:10

Estou com fome. Sendo sincera, vivo uma relação de amor e ódio com minha alimentação. Não estou doente, só não tenho vontade de comer (na maior parte do tempo). Então é estranho perceber a necessidade física de energia. Talvez eu esteja tão desanimada porque ando tendo refeições dignas apenas nos fins de semana.

Às vezes, tenho medo de ser como Theodore ou como a Hannah. Nossas semelhanças me assustam. E minhas mãos sempre frias me assustam. Mas, não o bastante. Nunca é o bastante.

Até que ponto é possível distinguir entre o estar bem e o caminho sem volta? Existe caminho sem volta? Eu não sei nenhuma das respostas.

Eu tento manter as mentiras longe das minhas palavras, mas é tão complicado dizer apenas a verdade. Ninguém quer realmente saber, porque ninguém quer se responsabilizar. Todos estão muito ocupados. Esse tipo de incômodo deve ser tratado em silêncio para que a não haja pertubações na rotina. E se me perguntarem o que realmente está acontecendo, um sorriso é uma boa resposta como qualquer outra. 

A fome já passou. Talvez mais tarde eu faça pipoca.

crônicas

Infeliz a minha maneira

03:30

Já faz um tempo que sei que preciso escrever sobre isso. Acredito que todas as histórias precisam ser contadas, inclusive as tristes. Mas, nunca contei isso a ninguém. Não é um segredo, só não é um assuntou muito amistoso. E sendo sincera, eu sempre quis proteger a imagem que as pessoas possuem daqueles que eu amo. Mas, eu preciso falar sobre isso. Preciso escrever. 

Aprendi que o amor é algo completamente altruísta. Creio que as pessoas comuns não entendem a extensão dessa sentença. Amar é não desistir. E não existe razão dentro disso. Amar é abrir mão de si mesmo e aceitar as mazelas do próximo. 

Amar é perdoar seu pai alcoólatra, porque ninguém escolhe ficar doente. Porque um comportamento, aprendido e ensinado como um alívio para uma ferida mais profunda, não pode ser severamente condenado. Amar é saber que se ele tivesse forças mudaria o passado. Amar é saber que mesmo se ele ainda perdesse os sentidos em bares deploráveis, ele ainda te amaria. Ele ainda seria seu pai que te ensinou a desenhar e que sempre, sempre te ouviu como se tudo que você falasse fosse de uma sabedoria ímpar. 

Amar é perdoar sua irmã que se apaixonou por um traficante aos dezesseis. É amar a menina que ela teve naquele mesmo ano, e que hoje é uma fonte inesgotável de alegria. Amar é perdoar todas as vezes que ela fez sua mãe chorar. É deixar de lado todas as lembranças dos ossos proeminentes e das fugas inesperadas. Amar é proteger as outras três crianças que vieram depois. Amar é não aprovar o comportamento destrutivo que parece não ter fim. Amar é se afastar, mas deixar que ela saiba que você vai estar sempre lá para perdoar de novo, de novo e mais uma vez.

Amar é entender todas as horas que sua mãe trabalha além da própria força. Amar é ser grata e saber que, sem ela, talvez a morte, a depressão, o desespero, já teriam te alcançado. Amar é não se ressentir por ela ter criado tantas crianças de pais ricos e não ter tido condições de te ajudar na lição de casa. Amar é saber que ela fez tudo por todos. Amar é saber que sem ela a família não existiria.

Amar é não condenar o próximo pela ignorância. É agradecer pelo bolsa família que já te ajudou no passado e defender a transformação social hoje. Amar é encontrar os filhos de ricos criados por mães empregadas e ter paciência para explicar como o mundo realmente é. 

Ele é faminto amigo. Ele é doente. Ele é assustador. As dores que você sente de barriga cheia são piores nas casas afastadas que estão no escuro. Amar é ter esperança de que a pobreza vai deixar de ser invisível. Amar é sempre, sempre lembrar do lugar de onde partiu. Amar é lutar para que as coisas mudem. Para pais, mães, irmãs e crianças que ainda não sabem de nada do mundo, mas que conhecem demais sobre a dor. 

Eu tenho um final feliz para contar. Se você me conhece já sabe disso. Mas, eu imploro: veja! Enxergue as pessoas invisíveis. Faça o bem em nome de Deus, Maomé ou do Lula. Qualquer um, eu não me importo. Eu só preciso que você faça alguma coisa em relação aos nossos tormentos. Ninguém liga, mas eu preciso que você seja diferente. Eu preciso do fundo do meu coração que o álcool, as drogas e o trabalho excessivo pare de matar os pequeninos desta nação.

Por favor! Faça por mim, por você e pela sua família. Porque eu sei que existe uma chance gigantesca da sua história ser parecida com a minha. 

crônicas

Carta aberta

22:26

Por que você parte meu coração? Você não vê que isso está nos matando? Você não enxerga que esses anos parecem um tormento interminável? Sempre acredito que dessa vez vai. Dessa vez vai ser diferente. Mas, não. Você sempre me decepciona. 

E o pior de tudo é que eu não sei o que sentir. Te amo pelo laço que nos une. Te odeio pelas feridas que você aflige as pessoas mais preciosas deste mundo. Eu sei que sua vida foi penosa, mas a essa altura você já teve muitas, muitas chances de transformar toda a maldade, a miséria, a desesperança em algo bom. 

E se eu consigo levantar todos os dias e caminhar, por que você não consegue? Você acha que sua vida foi difícil, mas foi você quem escolheu o seu caminho. O que eu escolhi? Eu escolhi acordar na madrugada e saber que você não estava lá? Eu escolhi ouvir vozes exaltadas, sendo esquecida em bancos de escola e em quartos escuros? Eu escolhi te ver definhar, depois enxergar a carne voltado, como se estivesse saudável outra vez, só para depois ver os ossos proeminentes novamente? Eu escolhi amar as pessoas que você colocou no meu caminho apenas para ver você as deixando para trás, como se fossem mais um dos seus pertences que foram perdidos tantos anos antes?

O que eu faço com você? Eu te rejeito? Como posso? Como posso deixar de te amar se você é parte de mim? Mas, você não parece me amar. Eu te olho e penso que você não ama ninguém. Nem a si mesma. Por quê? Você tem tanto potencial. Poderia ser qualquer coisa. Mas sempre escolhe colocar a culpa no passado pelos seus erros constantes. Você já notou isso? Já notou que sempre faz as mesmas coisas. Você está dentro de um ciclo de destruição, mas porque nos arrasta junto?

Estou tão cansada que já quis te esquecer. Tão cansada de ser espectadora do seu espetáculo de morte que já quis te riscar das minhas preces. Eu só queria que você pensasse um pouquinho. Eu tive família? Eu me lembro claramente de todos os anos sendo deixada de lado por estranhos. Eu deixei de amar alguém por isso? A negligência, o alcoolismo, a necessidade de sustento que impedia o cuidado diário. E tudo isso com o agravante de não saber se você tinha um teto. E depois suas crianças. Eu tenho pavor do que pode acontecer a elas tento tão menos do que eu tive. De todas as pessoas você devia saber como é. De todas as pessoas você devia ser a primeira a lutar pelo seu sangue.

Eu estou cansada. Já não acredito que você possa mudar. Eu te amo, mas não te suporto mais. Eu não tenho forças para suportar. E você nem liga. Acho que nunca ligou. 

crônicas

Levanta-te e anda

21:22

Já escrevi tanta coisa, mas tudo parece tão irrelevante, trivial. Não sei se as pessoas percebem o quanto nossa rotina é superficial e vazia. Nós somos pessoas egoístas de corações impuros que finge se importar. Fingimos ao nos comovermos com tragédias à milhas de distância. Mas, quem se importa com a tragédia ao lado? Qual foi mesmo a última vez que perguntei ao meu vizinho se ele precisava de algo? Acho que nunca. 

Mas existe dentro de mim esse querer. Um chamado maior do que a minha maldade que me enche de esperança. Uma voz maior que meu coração imperfeito que me motiva a tentar. Eu tento me importar. Por isso sigo as regras, me esforço para deixar meu temperamento controlado. Mas, minha vida passa como se eu estivesse sonolenta, tentando acertar os passos, mas sendo impedida pelo peso nos olhos. 

É necessária muita coragem para acordar. Porque eu preciso te contar algo: o mundo é mau. Estou chorando muito por saber disso. Meu coração dói profundamente. Nós vivemos em um lugar onde uma mãe abandona seus filhos como se eles fossem coisas. Você já se aproximou de uma cachorrinha depois de ela ter dado a luz? Ela defende seus filhotes, então como pode uma mãe, de uma raça supostamente superior, abandonar seu próprio sangue? Abandonar sua herança?

Existem muitas crianças vivendo sem amor. Incontáveis pequeninos que nunca terão uma chance. Meninos e meninas que não são vistos, que estão aí, do seu lado e permanecem invisíveis. 

Eu quero ser a pessoa que vê. Eu quero fazer algo. Talvez isso comece com minhas lágrimas, minhas preces, mas quero ir além disso. Quero ser mãe, tia e irmã para quem nunca teve uma família. Isso não porque eu sou uma boa pessoas, mas porque eu preciso ser. Porque as crianças esquecidas precisam de alguém que seja. 

Tudo começa com acreditar. E eu acredito que os órfãs desse mundo que mendigam de fome podem ter um futuro diferente. Eu acredito que casos perdidos não existem. Eu tenho fé de que se nos levantarmos, se abrirmos nossos olhos, se tivermos coragem para enxergar a podridão do mundo, nós podemos fazer algo para que ele não gere tanta morte, mas passe a exalar vida. Eu acredito.

crônicas

Amanhã eu volto

19:05

Já faz um tempo que as coisas permanecem sem mudanças significativas. Sinto saudades do passado, mas é enlouquecedor não dar um passo para frente no presente. É difícil viver assim. Não entendo as pessoas que se acomodam. 

Eu não devia fazer isso. Proclamar continuamente que estou de partida. Mas, sei que não posso viver a mesma vida por um prazo prolongado. Sei que nasci para transformações constantes. É só a maneira como as coisas são para mim. Não há nada de errado, apenas essa vontade de ver um cenário diferente. 

Mas a vida possuí amarras poderosas. É preciso saber para onde se está indo antes de partir. Mas, eu não sei. Só sinto que em breve descobrirei. Ao menos espero que sim. E se eu partir de fato, não sinta minha falta. É bom guardar memórias com um toque de saudade, mas não faz sentindo lamentar por alguém que precisa estar em movimento para ser feliz. Eu estou sempre dizendo adeus, então não fique me respondendo com olás.

Apenas, fique feliz por mim. Eu sempre estou por você. Às vezes, ver a sua alegria é o único motivo para os meus sorrisos.

Fungos na pia

22:15

Ainda não aceitei o fato de que sou adulta. Pago as contas, trabalho de oito às cinco, mas é muito estranho. Simplesmente não vi quando isso aconteceu. Talvez tenha sido quando me mudei da casa de meus pais, um ano atrás. Foi tudo tão repentino. Consegui um estágio e logo estava em uma república.

Era horrível. Garotas estranhas que enchiam o apartamento de desconhecidos. Foram meses apenas existindo, evitando criar raízes em um lugar tão desagradável. Mas, as coisas melhoraram. Consegui um segundo estágio. Caminhava quarenta minutos e corria para não me atrasar. Trabalhei como se soubesse mesmo o que eu estava fazendo. Era muito bom. Eu gosto de manter a mente ocupada.

Agora tenho um emprego de verdade. Terminei a faculdade. Moro com meu melhor amigo. Mas, essa não parece ser razão para que eu tenha conquistado meu crachá de mulher crescida.

Foi quando instalei meu próprio chuveiro? Foi quando comprei a minha primeira cama sozinha? Talvez tenha sido quando descobri os fungos na pia. Tão nojento! Os dedos dos meus pés se encolhem só por imaginar. De um laranja doentio, causados pelo excesso de umidade vinda do vazamento. Não tive outra opção além de limpar. Usei minha voz de negociante para encontrar alguém que entendesse de canos para concertar.

São coisas tão pequenas que me desafiam agora. Acertar o tempero para que o arroz ao menos pareça comestível. Entender que o banheiro precisa ser lavado e que as roupas não podem ficar jogadas em qualquer canto. Lavar a louça não é um problema, o difícil mesmo foi ficar seis meses sem geladeira, agora sei o valor de um bom copo de água gelada.

Talvez esses incômodos me tornem mais forte. Já descobri que aguento mais do que imaginava doze meses atrás. A vida não é perfeita, mas vencendo cada pequena batalha do dia a dia me descubro uma mulher mais capaz.

A solidão não me quebrou. Os constrangimentos não me pararam.

E tudo isso é tão banal, tão coisas pelas quais todo mundo passa, que nem parece algo grande.

Mas é. Crescer é a coisa mais grande que acontece com a gente. É a coisa mais inconveniente e animadora que existe.

Inevitável e revelador.

É descobrir quem a gente realmente é. E eu gosto de quem sou.


Gosto de ser a mulher que me tornei.

crônicas

Amar é viver

22:14

O mais importante do que tê-lo ao meu lado é saber que ele está bem. Escovando os dentes, tomando vacinas, lavando os sapatos, indo sempre a mercearia. Mais importante do que tê-lo é saber que ele está vivendo. Ele me enche de orgulho por não desistir da vida.

Como sempre, estou confusa, mas saber que ele está bem me proporciona paz. É estranho porque isso não muda com o passar do tempo, com a distância. Só é algo que sempre foi, que sempre vai ser. Ele sempre vai ter certa influencia sobre meu humor.

E não acho que seja fraqueza admitir isso. Não acho que é uma vulnerabilidade. Se importar com os outros é o que nos torna capazes de redenção. E amar é se importar. Amar é ter coragem de dizer: "quando você está bem eu fico de bom humor".

É claro que não é tão simples. Na vida, nada é simples. As coisas são complicadas e confusas mesmo. Naquele nível de não ter ideia do que vem adiante.

Mas, a gente até que pode se dar ao luxo de ter algumas certezas. Sobre quem a gente é, e sobre a possibilidade de se tornar uma nova pessoa, se necessário. Quando se conhece seu próprio coração, simplesmente se sabe dessas verdades duradouras.

Por isso eu sei. Sei que amá-lo nunca vai ser fácil, mas vai ser sempre minha escolha. Por isso que continuo escovando os dentes, lavando os sapatos, indo a mercearia, (precisando resolver logo aquele problema com as vacinas), porque estar viva é importante.

Porque querer viver bem é parte crucial do amor pelo outro e por si mesmo. Porque manter o coração batendo é essencial. Porque lutar diariamente para ser melhor é indispensável. Ser um coração nobre é parte do pacote. Afinal, de que adiantaria doar um coração que não estivesse em condições de amar?

Eu acho que posso fazer isso. Acho que sou forte o bastante para acreditar. Sou forte o bastante a ponto de confiar que o amor, mesmo que todos digam o contrário, é um sonho digno de buscar.

Eu só queria dizer... que me faz bem saber que ele está lendo bons livros.