com amigos

Encontre o amor da sua vida (ou algo melhor)

22:57

Texto escrito com F. V. Reis. Nossas conversas são geralmente assim, por isso talvez este texto seja uma grande piada interna. O importante é que nós dois ainda estamos rindo, mesmo não tendo mais vinte e um.

— Sabe o que nós parecemos?
— O quê?
— Duas vadias bêbadas.
Dois nerds conversavam na sacada do apartamento que dividiam.
— Como assim?
— Parece que estamos bêbados, falando sobre ex-namorados enquanto tomamos sorvete na sacada do prédio.
— Exceto pelo fato de que não temos sorvete. E não estamos bêbados.
— E não temos ex-namorados.
Os dois se alternavam escrevendo em um caderno como quem divide uma bebida.
O que dos jovens de vinte e um anos têm de relevante a dizer? Eles nutrem a ilusão de que as palavras escritas de forma apressada no caderno farão diferença na vida de alguém?
Aparentemente sim! Eles dão muita importante a um punhado de palavras.
— Os vizinhos devem nos achar patéticos. Olha bem! Ou estão chegando de um encontro ou estão saindo para mais uma conquista amorosa.
— Estão todos bêbados. Acho que, assim como nós, não estão fazendo grande coisa com a vida que têm. E não corta meu barato. Nunca fui a vadia na vida. Deixe-me ser a vadia pelo menos uma vez. — os dois riem. — Além disso, nem devem saber quem somos.
— É... acho que ninguém sabe. — os dois riem novamente.
— Isso é triste.
— Fazer o quê?! "A vida é uma meretriz que nos fode a todos".
— Ah, não. A vida tem seu lado doce.
— Ok, agridoce.
— Pensa bem: o Sr. Padaria! É sério. Um dia vão erguer estátuas dele pela cidade, e vai ser que nem na Coreia do Norte: as pessoas vão ter de venerá-las. — e, novamente, os nerds caem na gargalhada.
— Ter um crush suga minha juventude, estou dizendo. Estamos ficando velhos demais para isso.
— Mas, não está ficando mais fácil. Até meu cachorro tem uma namorada, e eu na solidão.
— Mas, esse é o ponto, certo?! A gente está tocando a nossa vida. Estamos alimentados, fizemos faxina. Os outros podem até pensar que estamos empurrando a vida com a barriga, mas nós estamos bem!
— Realmente, não faz muito sentindo ficar com qualquer um por causa da carência. Se eu já esperei vinte e um anos, posso esperar um pouco mais para encontrar o amor da minha vida.
— Ou algo melhor. — os dois nerds caem na gargalhada enquanto mais uma música questionável começa a tocar em algum lugar da vizinhança.

Ele

Mesmo que meus textos deponham contra mim

13:27

Eu sempre tenho textos guardados, não verbalizados, escondidos pela capa da insegurança.
E se eu não for boa, santa, curada, feliz, competente, responsável, bela o bastante?
E se alguém notar que eu não sou o bastante?
E se um dia meus textos deporem contra mim no tribunal humano no qual minha consciência é a advogada de defesa? Ela não me condena pelo que o outro vê. Ela tem suas próprias métricas.

Mas, se eu deixo de escrever por medo, tudo perde o sentido essencial. Porque se eu quero viver pela verdade, como posso mentir? Eu realmente não sou o bastante, mas a cada dia me coloco no meu lugar e tento ser melhor. Não melhor exteriormente, mas naquelas partes nas quais a minha advogada interior mais repara. Não mentir, não roubar, não jogar lixo no chão, não gritar. Abrir mão da minha vida confortável, conveniente, previsível para de fato fazer algum sentido. Quando olho bem de perto, não é de fato abrir mão. A vida que eu levo parece a fuga do meu propósito.

Quando me perguntarem o que eu realmente quero, para onde quero, eu não sei de fato. Mas, a cada dia a certeza de que meu papel não é aqui fica mais evidente. Minhas mãos trabalham, mas eu não colho frutos. Não posso continuar de mãos vazias.

Sim, eu sou muito dura comigo mesma. Sim, eu sei que tenho testemunhas de defesa que podem ficar ao meu lado. Mas, não é o bastante. Me resumir a apenas isso é matar as palavras, as promessas, os sonhos, as descobertas. E eu não posso virar as costas para quem me trouxe até aqui. Ele é o único que de fato faz alguma diferença no julgamento.

A sentença? Culpada, mas no banco de réu existe outro sentado no meu lugar. Só preciso achar um meio de parar de decepcioná-lo a cada momento que escolho uma vida prisioneira de mim mesma, negando que a liberdade é me entregar. 

Eu me entrego. Estou com medo e me entrego.

Ele

Ele

12:17

É triste pensar
Que fui eu que parti ele ao meio.

Eu o fiz engolir palavras
Que ele rejeitou.

Era uma viajem perfeita
Belamente planejada
Mas eu não me importei com as curvas declinadas
E caímos em cheio no precipício.

Ele podia ter escapado
Mas preferiu ficar comigo.

Para ele, pior do que me ver perder o controle
Era deixar a solidão ser a minha única companhia.
Meu escudo contra a morte.

Por isso, mesmo com uma hemorragia infindável,
Ele se colocou na minha frente
Como uma armadura viva,
Que impediu que eu também sangrasse.