crônicas

Adeus aos Patos

20:44

Aqui é muito silencioso. Eu só ouço meus protestos escandalosos contra a solidão, mas quando me aquieto não há ninguém ao redor. Já são seis anos em um lugar que não me pertence. Talvez no fim eu descubra que ninguém nunca realmente chega a pertencer, mas essa cidade não tem mais o que me oferecer.

Mas, ela me deu muito. De lágrimas à galhadas. De amigos eternos a desafetos indiferentes. De sins a nãos. Eu cresci tanto, não literalmente, mas sinto que agora meu coração é maior.

Saí de um quartinho sufocante para este apartamento que tem o meu cheiro, as minhas mãos, meus olhos em cada pedacinho. Fui eu que carreguei minha cama escada acima. Fui eu que coloquei o chuveiro no lugar. Eu assinei os papéis, fiz ligações furiosas, andei de um lado para outro até fazer dar certo. E deu.

Por mais que as angústias tenham sido diárias, a ansiedade, a perca de peso, de cabelo, de senso de realidade, eu consegui sobreviver a isso. Eu me tornei uma adulta completa e, mesmo não sendo um sonho colorido, sei que agora eu posso fazer o que eu bem entender com segurança. Acho que aqui eu aprendi a viver por conta própria. De certa forma, eu deixei de ser uma menina para me tornar uma mulher que, mesmo tremendo de medo, ainda vai em frente com a cara e a coragem.

Querida cidade, dona das minhas conquistas e dos meus fracassos, nunca vou te esquecer. Guarde bem aqueles que eu amo. Não sinta tanta falta, eu ainda volto de visita.

crônicas

Desempregada

22:56

Acho que confiro meu email mais de cinquenta vezes ao dia. É como se no fundo eu esperasse que chegasse uma daquelas mensagens "você ganhou um milhão", e que fosse verdade. Como se ao atualizar vezes o bastante finalmente aparecesse uma boa nova, uma carta de amor extraviada, uma proposta revolucionária.

Agora eu sou oficialmente uma desempregada em busca do sonho. É um ciclo paradoxal de angústia, porque eu tenho tanto medo daquilo que eu quero. Tanto medo de que o que eu desejo do fundo do coração se realize. Eu sou uma covarde, mas estou apostando todas as minhas fichas mesmo assim. Eu caminho com temor, mas caminho.

E agora a boa nova é que eu tenho um tempo para terminar o novo livro. Mas, é claro que tem que vir aquele bloqueio criativo. Meu lado autodestrutivo é tão eficiente que eu quase me orgulho. Mas, é escrevendo que eu resolvo o problema de não conseguir escrever. Então estou aqui. Mais uma vez deixando escapar pelas letras o aperto no coração para conseguir respirar novamente.

Naquela caixa de entrada eu tenho tantas provas de que devia desistir de escrever. Eu coleciono nãos. Eu deixo naquela pasta escondida as evidências de que não é o bastante, falta talento, falta paixão genuína. Quem leria algo escrito por alguém que é só metade? Os emails se juntam para responder "ninguém".

Mas, hoje, mesmo incapaz de escrever qualquer diálogo entre o casal da vez, eu não ligo para as negativas. Não me importo com a incerteza do mercado de trabalho. Eu sinceramente só quero escrever. Independente de ser o bastante ou não.

E tem sempre o consolo de saber que aquele meu sonho que me faz tremer as pernas é maior do que as palavras.